quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Portugal e os Descobrimentos (III)



Compatriotas,

Em Janeiro de 1988, por iniciativa de O Comércio do Porto, levou este jornal diário a efeito um certame intitulado ‘Portugal e os Descobrimentos’, em que os leitores poderiam dar o seu contributo, através da rúbrica ‘Rota dos Leitores’.
Contribuindo com muitos trabalhos, quero convosco compartilhar uma pequena parte dos mesmos e que foram publicados pelo citado jornal nortenho.
Assim, transcrevo-vos parte do que de meu nele foi publicado em 1/3/1988:

Roteiro da Ímpar Odisseia

Começando pelas Canárias
A Ceuta fomos à conquista,
Este foi só o começo
Da obra que já se avista.

Aportámos em Porto Santo
P’ra povoar a Madeira,
Mas não ficou só aqui
A nossa grande canseira.

Reconhecemos a costa africana
Desde o Norte ao Cabo Não,
Até transpor o Bojador
Limite do mundo d’então.

Vamos à Angra dos Ruivos
Indo à Pedra Galé,
Navegando ao Cabo Branco
Com rija gente – não ralé.

Nuno Tristão Arguim avista
E Garças, na Mauritânia,
Descobre o Senegal rio
Para a nossa Lusitânia.

Desenvolvem-se tratos comerciais
Em viagens d’exploração,
Deixam-se para depois
Rotas novas d’emoção.

Cadamosto de Veneza vem
Indo aos rios da Guiné,
Onde Diogo Gomes explorações faz
Arrostando-as com elevada fé.

Morre o Infante Navegador
O Ínclito abençoado
E Pedro de Sintra chega
Ao Cabo Mensurado.

Santiago, Fogo e Maio,
Boavista e o Sal
Foram descobertas primeiro
Seguindo-se descoberta igual.

São Nicolau e Santa Luzia,
Santo Antão e São Vicente
Completaram co’a Brava
O grupo do ocidente.

Soeiro da Costa atinge
O Cabo das Três Pontas,
Mas o João de Santarém
Vai fazendo contas.

E com Pero Escobar
Descobrem Ano Bom,
São Tomé e Príncipe a bisar
Em desempenho tão bom.

D’Europa foram estes os primeiros
O Equador dobrar,
Mas tal feito originou
Sacrifícios sem par.

Camarões e Ilha Formosa
De Fernão Pó foram,
Mas a odisseia não parou
A outras terras rumaram.

Lopo Gonçalves e Rui Sequeira
Vão de seu cabo ao Gabão,
Atingem Santa Catarina
Mesmo ali ao pé da mão.

João Vaz Corte-Real
Viaja ao Atlântico Norte,
Em terras da Gronelândia
P’ra nosso bem, nossa sorte.

Alcáçovas foi o tratado
Que nos reservou o direito
De marear mais além
E nos deu grande proveito.

Diogo de Azambuja constrói
A fortaleza que foi
S. Jorge da Mina o nome
“Elmina Bay” dizer-se ‘sói’

Eis que Diogo Cão
Do Cabo Catarina além vai,
À Baía do Molembo chega
E depois de lá sai.

Descobre o rio Congo
E d’Angola a sua costa,
Até ao Cabo do Lobo
A sua almejada aposta.

Segue-se o Cabo Padrão
A ponta dos Farilhões,
Sobre o Zaire até Ielala,
Novas terras, sonhos e visões.

Agora é Bartolomeu Dias
Das Tormentas Esperança fez,
Unindo o Atlântico ao Índico
Feito ímpar desta vez.

Pero da Covilhã visita
Sofala, Cananor e Goa,
Passando por Calcutá
Logo na Etiópia está.

Colombo vai às Antilhas,
Tordesilhas é tratado,
D. João II deixa este mundo
Mais amplo, mais dilatado.

Às terras da Gronelândia
Não vai um navegador,
Vão o Pedro Barcelos e
O João Fernandes Lavrador.

Vasco da Gama chega
À longínqua terra Natal,
Em viagem tão longa
Mas não menos triunfal.

Segunda expedição à Índia
Com Pedro Álvares Cabral,
Lá não chega, ao Brasil vai
P’ra gloria deste nosso Portugal.

Muitas expedições se fizeram
À estranha Índia apetecida,
Mais d’uma dezena foram
E muita gente referida.

Fernão de Magalhães
Também aqui faltava,
Passeou pelo Pacífico
Onde o vento escasseava.

Desde o rio São Lourenço
P’la Nova Escócia passando,
Fomos até à Califórnia
Sem o périplo terminando.

Chegámos além do Japão,
Novas Hébridas, Tabiti,
Austrália, Nova Guiné,
Tudo tão longe daqui.

Que gente foi esta – ó Júpiter,
Qu’enfrentou o Neptuno?
Obra fizeram com cascas de noz,
Fomos todos, todos nós.



Onde está esta gente?

Mas que gente é esta que partiu
“Por mares nunca dantes navegados”,
O Cabo Bojador surgindo viu,
Outros lugares nunca dantes avistados.

Venceu lendas, mitos e medos,
Superstições, doenças e querelas,
Ultrapassou escolhos e penedos,
Sofreu, vencendo procelas.

Seguiram-se terras ignotas,
Feitos tais, quase imortais,
Para espanto dos demais.

Hoje parecemos janotas
Comemorando feitos de mortais,
Que nunca tal farão jamais.

José Amaral







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