quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Férias. O que é isso?

O povo desapareceu. As cidades e as vilas estão mais vazias, e não faltam lugares para estacionamento de veículos. Pergunto o que é feito dos vizinhos, do povo em geral, e recebo como resposta de um infeliz que por cá ficou, de que as pessoas foram de férias. Mas foram para onde se ao que ouço não há ninguém com dinheiro para sair à rua e tais luxos? Replicam-me que quando é chegada a hora para romper com rotinas, o dinheiro aparece como por encanto. Uns amealharam uns patacos, outros recorrem à banca, e endividam-se. E serão férias, estas preocupações, e as que se levantam, de ter que preparar e carregar a tralha necessária para o dia-a-dia no lugar de destino escolhido para as passar, levar na mala e no tejadilho do carro, bicicleta, prancha, e carrinho de bebés, se for o caso de os haver, encher malas de roupa que regressarão para serem lavadas, com mais uma ou outra peça que entretanto por lá foi adquirida em saldo, e já no destino desejado, desmontar tudo, organizar no mínimo a tralha nas instalações que se vão ocupar, este fica aqui, aquele ali, e quem vai ajudar a despejar o carro, eu não que estou cansado, vai tu que dormiste toda a viagem, vamos é beber qualquer coisa fresca ali mesmo naquela esplanada, que parece em conta, e ainda temos que ir ao mercado para fazer umas compras para o jantar. Vai tu mulher, que eu fico a arrumar e a dar um pouco de ordem à tralha trazida, e que há de ir de volta. Reparo agora que não veio isto e mais aquilo, ai os óculos e os auscultadores,  e que é preciso ir ao grande mercado buscar. Se não for eu mais ninguém se lembra. Quando a mulher vier já vai ouvir. Temos que comprar um guarda-sol, que este afinal está roto e carunchoso. Os chinelos ainda dão para ir e vir da praia. Os calções compro aí numa feira ou ao cigano, que os há bonitos e contrafeitos de marca a dar nas vistas, que os meus estão gastos O bronzeador para já não faz falta e a mulher sempre tem no seu saco cabe-tudo, algum resto de outro. Preciso de guardar o carro e uma sombra vinha a calhar, mas em sítio que por cima não sobrevoe a passarada, que o deixa irreconhecível ao fim de alguns dias. Depois tenho que o lavar e é mais um custo a pagar. Bom. A mulher já chegou das compras orçamentadas, eu já dispus as coisas mais ou menos dentro do espaço arrendado, e vou descansar um bocado que bem preciso, que a viagem foi cansativa. Amanhã, logo cedo, vamos até ao areal, ver o mar, e tomar uma banhoca se ele deixar. Talvez no programa ainda haja um momento para visitar a terra aonde assentamos barraca. Logo se verá. Temos que aproveitar, pois já passaram dois dias, dos quinze disponibilizados para o efeito. Montado o bivaque na praia, em espaço que nos pareceu o melhor ou que sobrava, vou ali ao quiosque e compro o jornal da bola. Queres alguma revista para ti? Não, prefiro um gelado e aproveita traz uma garrafa de água. Eu para o bebé tenho o habitual. Amanhã, temos que ir ao mercado de peixe e da fruta, bem cedo, comprar umas coisas para o almoço, e encher o frigorífico com produtos necessários para as refeições. A garrafa de gás parece que vai dar só para dois dias, embora ele seja misto. Veremos para quanto dará, considerando as tomas de banho após fim de praia com a areia colada ao corpo, e lavar as toalhas e uma ou outra peça de roupa. Vou sair e volto já que vou encher o pneu da bicicleta, que afinal esvaziou. O jornal não li todo, mas guardo-o para melhor ocasião e no sofá de casa. Tens aqui umas revistas que os inquilinos anteriores deixaram, se quiseres dar uma vista d´olhos. Os baldes de lixo estão cheios, e enquanto fazes o jantar vou lá fora despejá-los no contentor público. Hoje temos que voltar ao super mercado, que fica aqui a 6 km, mas trazemos o que nos faz falta para o resto dos dias. Papel higiénico, fraldas, guardanapos, água, ovos, carne, sumos, e alguma coisa mais que esteja em promoção, e ainda bronzeador que o que trouxemos já acabou. O peixe, há no mercado bem fresco e eu gosto de ir até lá. Tu se quiseres ir indo mais o miúdo, vai, mas toma cuidado. Hoje é dia de recarregar tudo de novo, que é o último. Vamos regressar a horas que não coincidam com o maior trânsito. Quando chegarmos a nossa casa, à terra aonde vivemos o ano todo, a primeira coisa que farei é deitar-me a descansar. Tu descarrega o carro como puderes e arruma como for tua vontade. Eu depois tenho a lida doméstica, fazer alguma coisa para se comer, tratar do bebé, lavar a loiça, passar a ferro, e ficar a pensar naquilo que me disseste e não me agradou, sobre os gastos a mais que fizemos, e que mais valia ter ficado por cá. Eu vou-te dizer que nestas condições, também não quero partir para lado nenhum. Eu descanso mais se ficar aqui na minha casinha. Férias cansativas e perturbadas pelos poucos tostões de que dispomos, e pelas dívidas contraídas no banco para o empréstimo para pagar o alojamento e o aluguer do carro, deixam-me de rastos e apreensiva. Agora como os vamos pagar? Não olhes para mim com essa cara, tá bem?


*-(publicado um excerto, hoje na revista "SÁBADO")

1 comentário:

  1. E depois, essa gentalha diz que vem cansada do ócio que passou, certamente à custa daqueles que a sustenta, uma vez que muita gente foi 'vá de férias... e pague depois!'.

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